FLORES COMESTÍVEIS EMERGENTES: O CASO DE DAHLIA SPP. NO SISTEMA ALIMENTAR
DOI:
https://doi.org/10.56238/MultiCientifica-120Palavras-chave:
Flores Comestíveis, Legitimação Institucional, Inovação em Alimentos, Cadeias Agroalimentares, Ingredientes EmergentesResumo
O sistema alimentar contemporâneo tem sido cada vez mais orientado por dinâmicas de inovação que valorizam ingredientes naturais, diferenciação sensorial e narrativas associadas à sustentabilidade e autenticidade. Nesse contexto, recursos vegetais pouco explorados, como as flores comestíveis, emergem como alternativas promissoras para agregar valor aos alimentos e diversificar cadeias agroalimentares. No Brasil, entretanto, a incorporação dessas flores ainda é limitada a poucas espécies amplamente reconhecidas, como camomila, hibisco e rosas, geralmente utilizadas em chás e, mais recentemente, em produtos lácteos. Entre as espécies com potencial ainda pouco explorado, destaca-se Dahlia spp., tradicionalmente utilizada como planta ornamental, mas que apresenta compostos bioativos relevantes, como antocianinas e fenólicos, além de propriedades sensoriais diferenciadas. Apesar desse potencial, sua inserção no sistema alimentar enfrenta desafios técnicos, regulatórios e de mercado, associados à falta de padronização, ausência de regulamentação clara e limitações na cadeia produtiva. Diante desse cenário, o objetivo deste estudo foi analisar como profissionais de pesquisa e desenvolvimento (P&D) avaliam os desafios, oportunidades e caminhos de inovação relacionados à legitimação de Dahlia spp. como ingrediente alimentício no Brasil. Buscou-se compreender como critérios técnicos, regulatórios, mercadológicos e estratégicos influenciam a viabilidade de sua incorporação em produtos alimentícios e cadeias de valor emergentes. A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa exploratória, de caráter interpretativo, adequada para investigar fenômenos ainda pouco institucionalizados. Foram realizadas 13 entrevistas em profundidade com profissionais atuantes em três segmentos: academia, indústria de alimentos e consultoria especializada. Os dados foram coletados entre julho e dezembro de 2025, por meio de entrevistas online semiestruturadas, gravadas e transcritas integralmente. Todos os procedimentos seguiram os princípios éticos aplicáveis a pesquisas com seres humanos, com aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Lavras (CAAE nº 88336925.3.0000.5148). A análise dos dados foi conduzida com apoio do software IRaMuTeQ, utilizando procedimentos lexicométricos como Classificação Hierárquica Descendente e análise de similitude, complementados por análise temática reflexiva. Os resultados revelaram que a legitimação de Dahlia spp. como ingrediente alimentar é condicionada por múltiplos fatores interdependentes. Em primeiro lugar, critérios técnico-científicos, como segurança, padronização e estabilidade, foram apontados como pré-requisitos essenciais. Pesquisadores destacaram a necessidade de protocolos analíticos robustos e evidências científicas que garantam a reprodutibilidade e a segurança do ingrediente. Em segundo lugar, a viabilidade tecnológica e econômica foi enfatizada por profissionais da indústria, que ressaltaram limitações relacionadas à instabilidade de compostos como antocianinas, sensibilidade ao processamento térmico e variabilidade entre lotes, fatores que dificultam a escalabilidade produtiva. Além disso, os resultados indicam que a inserção de Dahlia spp. no mercado tende a ocorrer de forma gradual, por meio de estratégias de inovação incremental. Aplicações em bebidas ácidas, como chás e kombuchas, e em confeitaria artesanal foram identificadas como pontos de entrada mais viáveis, devido à maior estabilidade dos compostos e à valorização estética do ingrediente. A sustentabilidade emergiu como um elemento central tanto do ponto de vista simbólico quanto estratégico, sendo associada à valorização da biodiversidade, à produção de baixo impacto e à construção de narrativas de autenticidade e identidade territorial. No entanto, os participantes enfatizaram que essa narrativa precisa ser sustentada por evidências concretas, como rastreabilidade e certificações. Por outro lado, persistem barreiras estruturais relevantes. Entre elas, destacam-se limitações técnicas (instabilidade e padronização), barreiras sensoriais e culturais (associação de flores ao uso ornamental e resistência do consumidor) e, principalmente, entraves regulatórios, como a ausência da espécie em listas positivas e a necessidade de dossiês toxicológicos completos. Essas barreiras atuam de forma interdependente, dificultando investimentos e atrasando a consolidação do ingrediente no mercado. Conclui-se que a legitimação de Dahlia spp. como ingrediente alimentar não depende apenas de suas propriedades sensoriais e funcionais, mas de um processo articulado que envolve validação científica, viabilidade tecnológica, construção simbólica e adequação regulatória. Profissionais de P&D desempenham papel central como intermediários e “gatekeepers” da inovação, influenciando quais ingredientes avançam para aplicação industrial. Assim, a inserção de Dahlia spp. no sistema alimentar brasileiro depende da coordenação entre diferentes atores da cadeia produtiva, incluindo pesquisadores, indústria, consultores e órgãos reguladores, sendo um processo gradual e condicionado à superação de barreiras institucionais e técnicas.